Priscopata

Monday, December 04, 2006


Em um âmbito filosófico (a Gestalt chegou a ser considerada uma 'filosofia da forma'), pode-se dizer que foi deixado de lado o ego cogito cartesiano para, como Husserl (que foi, de fato, mestre de Koffka, um dos papas desta escola), adotar-se um ego cogito cogitatum: não há uma ruptura entre consciência - ou sensação, no caso da escola da forma - e mundo. O "resíduo" a que se pode chegar por uma redução, uma dissecação do real - ou de uma forma - não é o "eu penso", mas a correlação entre o eu penso e o objeto de pensamento (o ego cogito cogitatum). Em suma, não existiria consciência enquanto tal, mas toda consciência seria consciência de.Isso, porém, não se dá de forma separada, como pretendiam os associacionistas (escola da psicologia que predominou no século XIX), mas concomitante: tomemos como exemplo um carro na estrada, seguindo em direção contrária a você. Para os associacionistas, há um intervencionismo do pensamento, ou seja, suas sensações lhe dizem que o carro está diminuindo à medida em que se afasta, mas, sendo conhecedor das leis da física, ou mesmo já tendo passado por esta experiência, seu pensamento reagiria, corrigindo o equívoco. O dado sensorial seria menos real que a percepção, e interpretado de acordo com a experiência.

A Gestalt surgiu nas primeiras décadas deste século como uma espécie de resposta ao atomismo psicológico, escola que pregava uma busca do todo psicológico através da soma de suas partes mais elementares; o complexo viria pura e simplesmente da reunião de seus elementos mais simples, era uma escola de adição. A Escola da Forma dizia o contrário: não podemos separar as partes de um todo pois dele elas dependem e não fazem sentido, pelo menos o mesmo, senão enquanto partes formadoras daquele todo.Em seu início, havia duas correntes na Gestalt, a dos dualistas e a dos monistas: os primeiros acreditavam existir uma percepção mental que diferiria da sensorial. Sendo assim, perceberíamos os elementos separadamente e só então eles formariam o todo através de uma ação do espírito, de uma percepção mental. Um desenho, por exemplo, não é um todo, mas o que estaria produzindo a forma total que percebemos, o que ligaria seus elementos seria o espírito. Encontram-se nessa corrente muitos resquícios do atomismo psicológico, enquanto que os monistas realmente romperam com eles, ao sustentarem que as partes dependem mais do todo que ele destas, que é ele quem as determina. Para os monistas o esquema da percepção seria, basicamente: estímulos sensoriais -> forma -> sensação.

Este blog foi criado sobre a orientação da professora Eurivaldina para a disciplina de Informática, aos alunos:
Antonio Prisco, Elionedson e Edenildes do curso de ADM da FAMA.
Ele trará referências sobre a GESTALT.

Monday, November 27, 2006

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Sunday, November 19, 2006

A PSICOLOGIA DA GESTALT NOS DIAS ATUAIS
Wofgang Köhler
 KOHLER, Wolfgang. Wolfgang Köhler: Psicologia. São Paulo: Ática, 1978. p. 148-154.
 Publicação original: Köhler, Wofgang. Gestalt Psychology Today. In HENLE, M. (org.). Documents of Gestalt Psychology. Berkeley e Los Angeles, Califórnia, University of California Press, 1961. pág. 1-15. Tradução de Sylvio Uliana. A seguir, fragmentos do texto integral.
(...)
Gostaria de começar com algumas observações sobre a história da Gestalt – pois nem todos os capítulos dessa história são conhecidos de modo geral. No século passado, na década dos oitenta, os psicólogos europeus se viram profundamente confusos com a afirmação de von Ehrenfels de que milhares de impressões perceptivas possuem características que não podem ser obtidas das características de seus componentes últimos, as chamadas sensações. Como exemplos, foram usadas cordas e melodias na audição, características de forma dos objetos visuais, aspereza ou maciez nas impressões tácteis etc. Todas essas "qualidades próprias da Gestalt" têm uma coisa em comum. Quando os estímulos físicos em questão sofrem considerável variação, sendo mantidas constantes as suas relações, as qualidades características da Gestalt permanecem quase as mesmas. Mas, na época, era pensamento geral que as sensações envolvidas são determinadas individualmente pelos seus estímulos individuais, e deviam, por isso, variar quando estes sofriam grande variação. Como poderiam, então, permanecer constantes quaisquer características da situação perceptiva sob tais condições? De onde vinham as qualidades próprias da Gestalt? As qualidades descritas por Ehrenfels não são ingredientes fantasiosos desta ou daquela situação em particular, que podemos ignorar tranqüilamente. Pertencem a essa classe as características estéticas tanto positivas como negativas do mundo que nos cerca, quer se trate de ornamento, pintura, escultura, música etc., ou de árvores, paisagens, casas, carros -- e outras coisas do tipo. Nem é preciso ressaltar que as relações entre os sexos dependem, em grande parte, de espécimes da mesma classe. Por isso, não é seguro lidar com problemas da Psicologia como se não existissem tais qualidades. E, no entanto, a começar do próprio Ehrenfels, os psicólogos ainda não foram capazes de explicar a natureza delas.

Isso se aplica também àqueles que, mais tarde, foram chamados psicólogos da Gestalt, incluindo-se este autor. As idéias e investigações de Wertheimer se desenvolveram em direção diferente. Seu modo de pensar era também mais radical que o de Ehrenfels. Ele não indagava: Como são possíveis as qualidades da Gestalt, quando, basicamente, o cenário de percepção consiste de elementos separados? Ele, antes, objetava a essa premissa, a tese de que a reflexão do psicólogo deve começar pela consideração de tais elementos. Achava ele que, de um ponto de vista subjetivo, pode ser muito atraente pressupor que todas as situações de percepção consistem de componentes independentes, muito pequenos. Pois, com base nessa suposição, obtemos um quadro extremamente claro daquilo que se situa por trás dos fatos observados. Mas, como sabemos que uma clareza subjetiva desse tipo está de acordo com a natureza daquilo que temos diante de nós? Talvez paguemos o preço da clareza subjetiva do quadro costumeiro, ignorando todos os processos, todas as inter-relações funcionais, que possam ter operado antes de haver um cenário de percepção, e que influenciem, dessa forma, as características deste. Ser-nos-á permitido impor à percepção uma extrema simplicidade, que ela, objetivamente, pode não possuir?

Lembramos que Wertheimer começou a raciocinar desse modo, na ocasião em que fazia experimentos não com situações de percepção estacionárias -- e, portanto, comparativamente mudas --, mas com objetos visuais em movimento, quando os estímulos correspondentes ficavam estáticos. Diríamos, então, que tais "movimentos aparentes" ocorrem, quando vários objetos visuais aparecem ou desaparecem em certas relações temporais. Usando novamente nossa linguagem atual, ocorre, em tais circunstâncias, uma interação que faz, por exemplo, com que um segundo objeto apareça demasiado próximo ou em coincidência com um primeiro, que está desaparecendo, de sorte que, somente quando se apaga realmente o primeiro objeto e, portanto, a interação, pode o outro mover-se para a sua posição normal. Se isso é interação, ela não ocorre, como tal, no cenário de percepção. Nesse cenário, nós apenas observamos um movimento. Só podemos descobrir que movimentos desse tipo não correspondem àqueles reais dos objetos-estímulo, devendo, portanto, ser produzidos por uma seqüência dos dois objetos, se examinarmos a situação física. Segue-se que, se o movimento observado é o resultado perceptivo de uma interação, esta ocorre fora do campo perceptivo. Assim, o movimento aparente confirmava a suspeita mais geral de Wertheimer: não podemos pressupor que o cenário perceptivo seja um agregado de elementos desconexos, só porque certos processos subjacentes já estejam funcionalmente inter-relacionados, quando aquele cenário aparece à tona e exibe, então, efeitos correspondentes.

Wertheimer não ofereceu explicação fisiológica mais específica. Na época, isso teria sido impossível. Voltou-se ele, em seguida, para o problema de verificar se as características dos campos perceptivos estacionários também são influenciadas por interações. Não é preciso relembrar a maneira como ele investigou a formação de unidades molares de percepção e, de modo mais particular, a formação de grupos de tais objetos. Padrões por ele usados, para esse fim, encontram-se agora reproduzidos em muitos compêndios. Demonstram, claramente, que são as relações entre os objetos visuais que decidem quais os que se tornam membros do grupo e quais os que não se tornam, e onde, dessa maneira, um grupo se separa de outro. Há, nesse fato, a forte sugestão de que os grupos perceptivos são estabelecidos por interações; e, como o observador ingênuo toma consciência apenas do resultado, os grupos percebidos, mas não de sua dependência de relações particulares, tais interações ocorreriam mais uma vez entre os processos subjacentes em vez de dentro do campo perceptivo.

Permitam-me acrescentar uma outra observação sobre esse primeiro estágio do desenvolvimento. Sem dúvida, naqueles tempos, os psicólogos da Gestalt não se satisfaziam com uma simples apreciação dos fatos disponíveis. Parece que isso se dá com toda tendência nova importante dentro da Ciência. Ficamos entusiasmados com o que descobrimos, e ainda mais entusiasmados com a perspectiva de encontrar novos fatos reveladores. Além disso, não era apenas a novidade estimulante de nossa empresa que nos inspirava. Sentíamos, também, como que uma grande onda de alívio -- como se estivéssemos fugindo de uma prisão. A prisão era a Psicologia como era ensinada nas universidades, quando ainda éramos estudantes. Naquela época, ficamos chocados com a tese, segundo a qual todos os fatos psicológicos (não apenas os relativos à percepção) consistem de átomos inertes não-relacionados, e segundo a qual os fatores quase únicos que combinam esses átomos, introduzindo assim a ação, são as associações formadas sob a influência da mera contigüidade. O que nos perturbava era a completa falta de sentido desse quadro e a implicação de que a vida humana, aparentemente tão colorida e cheia de dinamismo, é, na verdade, horrivelmente maçante. Isso não se dava com o nosso novo quadro, e sentíamos que novas descobertas viriam destruir o que restara do velho.